terça-feira, 13 de novembro de 2012

O meu primeiro filho - O Douradinho

O meu primeiro filho foi um cão, lamento mas é a verdade. Já antes tinha tido animais, mas ter animais na casa dos pais, com os pais, não é bem a mesma coisa que ter um cão ... sozinho, vivendo sozinho. E as Rãs, os Hamsters, as formigas e os pássaros não requerem a mesma atenção ... nem 3 passeios por dia, faça sol chuva ou neve ....
Muitos pedem aos Pais para ter um cão e se começam por aí ou os vossos Pais percebem a importância que é ensinar a ser responsável pelo animal ou está o caldo entornado. Muitos dos que começam com pedidos aos Pais para ter animais até fazem grandes manifestos e exposições de teorias e de promessas, tipo campanha política, cheia de promessas, de boas intenções, mas após as eleições ganhas (cão em casa) normalmente tudo muda, ou, a bem da verdade, nada muda.


Conheço até vários casos de malta que quase que impõe aos pais o cão ... numa casa que, sendo dos Pais, que nunca quiseram ter animais, e que após uma vida inteira a trabalhar para conquistar algum tipo de paz certa e garantida (que cada vez mais está difícil de obter), acabam a pagar um preço que não lhes deveria ser imposto muito menos ao animal ... e o que não falta é casos em que o animal acaba dado ou até mesmo abandonado ... quando afinal o ser humano que despoletou tudo deveria acabar a pagar até ao fim de vida do animal as despesas que ele acarreta, talvez assim percebessem para a frente que a responsabilidade de ter um animal não pode nunca acabar, seja porque vai para fora trabalhar, porque quer ir de férias, ou só porque mudou de opinião ... pode fazê-lo, não deveria era condenar nada nem ninguém a pagar, porque as responsabilidades não se delegam (quanto muito funções).
E de um modo geral a malta que passa por isso, mais ou menos, seja qual for o grau, não pára para primeiro que tudo reconhecer o que fez ... quanto mais aprender e isso limita-os a eles e aos que os rodeiam, quanto mais o animal ... para todo o futuro que tiverem.
Eu, ao adoptar (a importância de se tratar as coisas pelos nomes) , aceitei que TUDO na minha vida teria de passar a ser ... diferente. O meu dia-a-dia passou a começar bem mais cedo, chegando a acordar às 6 da manhã para poder passear e  treiná-lo um bocadinho, nos primeiros anos todos os dias ao fim do dia tinha sessão de treino de pelo menos duas horas, e muitos dias tinha de ir a casa à hora de almoço para o passear. As minhas férias passaram a ser diferentes e tê-lo sempre em conta, existindo excepções em que vou para fora e ou o deixo no Hotel ou com alguém (e não é qualquer um/uma que fica com o Douradinho (nome de código para a net).


O mais difícil que passei na minha vida com animais domésticos foi o ter de aceitar que não tinha condições para tomar conta de um cadela (após esta ter sofrido um brutal acidente e ter ficado para sempre limitada) – até foi fácil no que toca à práctica, graças ao meu Pai (um exemplo perfeito no que toca animais, não fosse ele na altura líder de várias Associações Ambientais e voluntário em acções várias de estudo, investigação e também de reacção ... )
Talvez por isso quando se divorciou e vi “sobrar” um cão ... me tenha doído tanto, Ele é que não tinha culpa de nada e ali estava ele, sozinho e triste, numa casa outrora cheia de vida e que agora não tinha nada nem ninguém ... estando garantida a alimentação. Muitas foram as vezes que, chegando à sexta-feira, eu arrancava para o Alentejo para por lá ficar até Domingo à noite ... nesse Verão as minha férias foram lá passadas, no total, e quando lhe encontrámos um Lar (era impensável trazê-lo para a cidade e enfiá-lo num apartamento), e eu passei a noite a chorar por saber que provavelmente nunca mais o veria ... ele passou a noite debaixo da minha janela ... a ganir e uivar ... (doía ainda mais!), marcou-me para SEMPRE! Mas fiz o que era certo para Ele e não o que era fácil para mim!
Assim perceber-se-á como aceitei a decisão de adoptar o Douradinho – com medo das consequências – já que não tive grande voto na matéria ... e quem os teve não o adoptou ... nem vive com ele ...
O Douradinho é hoje um cão com quase 11 anos, sempre foi calmo e extremamente educado, não empina, não salta,  passeia solto e obedece (actualmente muitas das vezes vai de trela mas apenas por estar quase cego e o poder ajudar a não bater tanto contra tudo e mais alguma coisa ...), não deixando por isso de ser um cão feliz, fartou-se de viajar, passear e explorar em caminhadas de horas, e até banhar-se em muitas das praias da Costa Alentejana (onde chegava a mergulhar por baixo das ondas, sozinho e por iniciativa) e piscinas de amigos que lhe achavam imensa piada já que nadava e brincava com a malta dentro de água, chegando a ficar comigo só a flutuar e apreciar o fresquinho tipo banho de imersão ...  que vida!
Vou mais longe, o douradinho não ladra (só quando é mesmo preciso!) e por norma não passa a estrada sem autorização ... enfim, é educado, comporta-se! Óbvio que se passar uma “miúda” (leia-se cadela) do outro lado da estrada ... muda tudo, actualmente fica meio perdido por não ver quase nada ... 


Contigo meu Douradinho querido, aprendi a diferença entre dizer que se tem um cão ... e ter de facto um cão ... e isso prende-se com o facto de se fazer o que tem de ser feito, com estar presente e com dar o meu melhor! ...
Mais importante ainda, aprendi a educar aprendendo mais do que ensinei ... e mesmo com os animais os humanos têm TUDO a aprender, já que os únicos que se autointitulam de inteligentes e racionais ... são os que nos condenam diariamente à extinção, replicando e insistindo em comportamentos insustentáveis e NADA racionais quanto mais inteligentes.
Contigo aprendi a importância dos pequenos passeios ... mesmo estando cansado, chateado e sem humor ... mesmo estando um frio de rachar e/ou a chover.
Actualmente o douradinho é o irmão mais velho, e já reconhece o Baby F. (já o lambe e já se deita no chão da sala ao seu lado) mas já está a entrar na parte menos feliz (ou mais chata) ... já que após uma vida inteira com displasia, com cataratas, com fadiga muscular, ... mas sempre saudável e feliz, manter essa qualidade de vida será agora o desafio, e dentro do que me for possível e talvez impossível, continuarei a tentar ... e a dar o meu melhor! Mas já tenho saudades do meu Companheiro ... MUITAS!
Agora já passa o dia em lamentações ... seja de atenção, de mimos, de passeios ... já que sente que tem menos de nós ... e isso entristece-me apesar de ser normal e expectável ainda mais vindo de um Labrador.


Isto que aqui leem é nada mais nada menos, que o aceitar de algo natural e inevitável, para que em Vida não se perca de vista nada do que realmente importa, quem quer procura razões (para conviver mais, mimar mais, amar mais, ...) quem não quer arranja desculpas (está cansado, está frio, ..  tem outras coisas para fazer .... etc.) e isso funciona também para com relações humanas ... aproveitem enquanto podem, a companhia dos vossos companheiros, dos Amigos, dos que optam por vocês ... humanos ou não!
Procurem, por opção, quem querem encontrar ... e passar tempo, antes que seja tarde demais, ou aceitem que não optam por vós ... e optem antes por quem retribui ... a reciprocidade é importante.
E, se for preciso, quando for preciso, façam ... o que for preciso por esses que o merecem, mesmo que isso seja segurar-lhes por exemplo a mão, ou a patinha, ...  não sair do lado dele ... como já antes fiz ... não foi fácil, não, mas seria muito mais difícil viver não o tendo feito, seria muito mais difícil viver comigo ... como muitos fazem ...
Já tenho saudades Tuas!


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