O meu primeiro filho foi um cão, lamento mas é a
verdade. Já antes tinha tido animais, mas ter animais na casa dos pais, com os
pais, não é bem a mesma coisa que ter um cão ... sozinho, vivendo sozinho. E as
Rãs, os Hamsters, as formigas e os pássaros não requerem a mesma atenção ...
nem 3 passeios por dia, faça sol chuva ou neve ....
Muitos pedem aos Pais para ter um cão e se começam por aí ou os vossos Pais
percebem a importância que é ensinar a ser responsável pelo animal ou está o caldo
entornado. Muitos dos que começam com pedidos aos Pais para ter animais até
fazem grandes manifestos e exposições de teorias e de promessas, tipo campanha
política, cheia de promessas, de boas intenções, mas após as eleições ganhas
(cão em casa) normalmente tudo muda, ou, a bem da verdade, nada muda.
Conheço até vários casos de malta que quase que impõe aos pais o cão ... numa
casa que, sendo dos Pais, que nunca quiseram ter animais, e que após uma vida
inteira a trabalhar para conquistar algum tipo de paz certa e garantida (que
cada vez mais está difícil de obter), acabam a pagar um preço que não lhes
deveria ser imposto muito menos ao animal ... e o que não falta é casos em que
o animal acaba dado ou até mesmo abandonado ... quando afinal o ser humano que
despoletou tudo deveria acabar a pagar até ao fim de vida do animal as despesas
que ele acarreta, talvez assim percebessem para a frente que a responsabilidade
de ter um animal não pode nunca acabar, seja porque vai para fora trabalhar,
porque quer ir de férias, ou só porque mudou de opinião ... pode fazê-lo, não
deveria era condenar nada nem ninguém a pagar, porque as responsabilidades não
se delegam (quanto muito funções).
E de um modo geral a malta que passa por isso, mais ou menos, seja qual for o
grau, não pára para primeiro que tudo reconhecer o que fez ... quanto mais
aprender e isso limita-os a eles e aos que os rodeiam, quanto mais o animal ...
para todo o futuro que tiverem.
Eu, ao adoptar (a importância de se tratar as coisas pelos nomes) , aceitei que
TUDO na minha vida teria de passar a ser ... diferente. O meu dia-a-dia passou
a começar bem mais cedo, chegando a acordar às 6 da manhã para poder passear
e treiná-lo um bocadinho, nos primeiros
anos todos os dias ao fim do dia tinha sessão de treino de pelo menos duas
horas, e muitos dias tinha de ir a casa à hora de almoço para o passear. As
minhas férias passaram a ser diferentes e tê-lo sempre em conta, existindo
excepções em que vou para fora e ou o deixo no Hotel ou com alguém (e não é qualquer
um/uma que fica com o Douradinho (nome de código para a net).
O mais difícil que passei na minha vida com animais domésticos foi o ter de
aceitar que não tinha condições para tomar conta de um cadela (após esta ter
sofrido um brutal acidente e ter ficado para sempre limitada) – até foi fácil
no que toca à práctica, graças ao meu Pai (um exemplo perfeito no que toca
animais, não fosse ele na altura líder de várias Associações Ambientais e
voluntário em acções várias de estudo, investigação e também de reacção ... )
Talvez por isso quando se divorciou e vi “sobrar” um cão ... me tenha doído
tanto, Ele é que não tinha culpa de nada e ali estava ele, sozinho e triste,
numa casa outrora cheia de vida e que agora não tinha nada nem ninguém ...
estando garantida a alimentação. Muitas foram as vezes que, chegando à
sexta-feira, eu arrancava para o Alentejo para por lá ficar até Domingo à noite
... nesse Verão as minha férias foram lá passadas, no total, e quando lhe
encontrámos um Lar (era impensável trazê-lo para a cidade e enfiá-lo num
apartamento), e eu passei a noite a chorar por saber que provavelmente nunca
mais o veria ... ele passou a noite debaixo da minha janela ... a ganir e uivar
... (doía ainda mais!), marcou-me para SEMPRE! Mas fiz o que era certo para Ele
e não o que era fácil para mim!
Assim perceber-se-á como aceitei a decisão de adoptar o Douradinho – com medo
das consequências – já que não tive grande voto na matéria ... e quem os teve
não o adoptou ... nem vive com ele ...
O Douradinho é hoje um cão com quase 11 anos, sempre foi calmo e extremamente
educado, não empina, não salta, passeia
solto e obedece (actualmente muitas das vezes vai de trela mas apenas por estar
quase cego e o poder ajudar a não bater tanto contra tudo e mais alguma coisa
...), não deixando por isso de ser um cão feliz, fartou-se de viajar, passear e
explorar em caminhadas de horas, e até banhar-se em muitas das praias da Costa
Alentejana (onde chegava a mergulhar por baixo das ondas, sozinho e por
iniciativa) e piscinas de amigos que lhe achavam imensa piada já que nadava e
brincava com a malta dentro de água, chegando a ficar comigo só a flutuar e
apreciar o fresquinho tipo banho de imersão ...
que vida!
Vou mais longe, o douradinho não ladra (só quando é mesmo preciso!) e por norma
não passa a estrada sem autorização ... enfim, é educado, comporta-se! Óbvio
que se passar uma “miúda” (leia-se cadela) do outro lado da estrada ... muda
tudo, actualmente fica meio perdido por não ver quase nada ...
Contigo meu Douradinho querido, aprendi a diferença entre dizer que se tem um
cão ... e ter de facto um cão ... e isso prende-se com o facto de se fazer o
que tem de ser feito, com estar presente e com dar o meu melhor! ...
Mais importante ainda, aprendi a educar aprendendo mais do que ensinei ... e
mesmo com os animais os humanos têm TUDO a aprender, já que os únicos que se
autointitulam de inteligentes e racionais ... são os que nos condenam
diariamente à extinção, replicando e insistindo em comportamentos
insustentáveis e NADA racionais quanto mais inteligentes.
Contigo aprendi a importância dos pequenos passeios ... mesmo estando cansado,
chateado e sem humor ... mesmo estando um frio de rachar e/ou a chover.
Actualmente o douradinho é o irmão mais velho, e já reconhece o Baby F. (já o
lambe e já se deita no chão da sala ao seu lado) mas já está a entrar na parte
menos feliz (ou mais chata) ... já que após uma vida inteira com displasia, com
cataratas, com fadiga muscular, ... mas sempre saudável e feliz, manter essa
qualidade de vida será agora o desafio, e dentro do que me for possível e
talvez impossível, continuarei a tentar ... e a dar o meu melhor! Mas já tenho
saudades do meu Companheiro ... MUITAS!
Agora já passa o dia em lamentações ... seja de atenção, de mimos, de passeios
... já que sente que tem menos de nós ... e isso entristece-me apesar de ser
normal e expectável ainda mais vindo de um Labrador.
Isto que aqui leem é nada mais nada menos, que o aceitar de algo natural e
inevitável, para que em Vida não se perca de vista nada do que realmente
importa, quem quer procura razões (para conviver mais, mimar mais, amar mais,
...) quem não quer arranja desculpas (está cansado, está frio, .. tem outras coisas para fazer .... etc.) e
isso funciona também para com relações humanas ... aproveitem enquanto podem, a
companhia dos vossos companheiros, dos Amigos, dos que optam por vocês ...
humanos ou não!
Procurem, por opção, quem querem encontrar ... e passar tempo, antes que seja
tarde demais, ou aceitem que não optam por vós ... e optem antes por quem
retribui ... a reciprocidade é importante.
E, se for preciso, quando for preciso, façam ... o que for preciso por esses
que o merecem, mesmo que isso seja segurar-lhes por exemplo a mão, ou a patinha,
... não sair do lado dele ... como já
antes fiz ... não foi fácil, não, mas seria muito mais difícil viver não o
tendo feito, seria muito mais difícil viver comigo ... como muitos fazem ...
Já tenho saudades Tuas!

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