terça-feira, 6 de novembro de 2012

Desta vez é diferente, ou não!? Quantas vezes pode o mesmo País falir?



Mas afinal tudo e todos podemos falir? Quantas vezes?
O que é falir?

Falir, pelo menos de acordo com aquele que é o código linguístico para a nossa língua – o dicionário (tão fora de moda mas nem por isso menos importante para se falar, comunicar e tratar as coisas pelos nomes com objectividade e sem ruído, ter boa comunicação).
Falir significa faltar aos compromissos, minguar, desfalecer, no comércio é quebrar (ou vai ou racha ...), suspender os pagamentos ...  e actualmente tudo tem falido ... empresas, pessoas e até países ... mas não é novidade nenhuma, a malta fez foi questão de não se lembrar já que sempre tivemos (a Humanidade) o terrível hábito de remediar, de desenrascar algo ... e chutar a bola para a frente ou empurrar com a barriga ... e voltar mais ou menos ao mesmo senão só ao mesmo de sempre. Expressões tão oportunas ... mas que nos continuam a condenar sempre à repetição do mesmo ... e aprender é passar pelo mesmo e fazer diferente! ... simples.
É preciso parar, assumir os erros, as verdades inconvenientes, assumi-las e reconhecer que todos temos de algum modo responsabilidades (só assim se ganha consciência de um ou vários defeitos/pontos fracos que mais à frente poderão ser corrigidos) e aí a nossa cultura (Portugal) é a oposta do que falo e do que é preciso. O Português é o perito no desenrascanço ... o que é paradoxal com o planeamento, quanto mais com a implementação, o controle, a avaliação .... (não estamos por isso condenados, mas temos nos genes a arte do não fazer ... em vez disso lá vamos fazendo ... mas esse é um tema que abordarei numa outra ocasião em breve.

Não consegui encontrar muita informação anterior a 1800 mas desde então, só a Espanha já entrou em incumprimento treze vezes e a Alemanha oito. As Falências de Estados são bem mais normais do que aquilo que nos passam ... Não sendo por isso menos graves, menos sérias, ou menos relevantes até porque têm consequências brutais para as pessoas, para o povo.
Um perdão de dívida, a recusa de pagamento aos credores ou a insolvência de um país são eventos que constituem muito mais a norma do que a exceção na história financeira moderna do Mundo mas para isso saltar à vista é preciso estudar, investigar e ir buscar informação, filtrá-la e analisá-la ...
Já não nos parecemos lembrar do facto de muitos dos Países já faliram, recorde-se por exemplo a falência da Argentina (em 2001), é normal já que bem mais recente temos aquela que foi só a maior reestruturação de dívida alguma vez feita (Grécia em 2011) mas estes foram casos amplamente debatidos e considerados como eventos anormais, extraordinários, a realidade é que as vagas de falências de nações são afinal fenómenos cíclicos e até habituais se olharmos para a História, são consequências ou danos colaterais de algo que afinal não se fala, nem se assume, quanto mais muda e evolui.
As duas mais recentes vagas de falências de países aconteceram quase seguidas em duas décadas (80 e 90 do século passado) com as economias emergentes da América Latina mas anteriormente, nos períodos da chamada Grande Depressão e no pós-Segunda Guerra Mundial, temos outra vaga que afectou as economias mais desenvolvidas, nomeadamente, as da Europa. A próxima onda poderá de facto vir a atingir o centro da moeda única europeia e até o centro da União Europeia. Grécia, Portugal, Hungria, Eslovénia, Espanha e Itália estão entre os alvos mais prováveis.
Pesquisando e estudando encontram-se alguns factos curiosos para contrastar, já que só nos últimos 200 anos registaram-se mais de 250 falências de Países, alguns várias vezes. Em cerca de 200 anos, por exemplo, a Grécia, passou mais de metade desse tempo falida ou a incumprir (100 anos) dependendo de credores e de acordos especiais que acabaram por nunca ser aproveitados para corrigir aquilo que é a doença, cada vez mais crónica, desta cultura não sustentável e por isso não viável mas que persiste e é cada vez mais norma ... e aí de facto Portugal tem algumas parecenças e deveria aprender até olhando para os erros dos outros (por vezes é mais fácil ver nos outros o que afinal nós também fazemos).
Desde 1800 até aos dias de hoje, Portugal entrou em incumprimento seis vezes (3 no pós 25 de Abril tendo a maior intervenção e perda de soberania do Portugal que hoje existe ocorrido sob a égide do Sr. Mário Soares (Não anula TUDO o que fez pelo País) mas parece já não se lembrar de ter cortado ordenados, subsídios, anulado direitos aos cidadãos, por necessidade real e imposta no contrato – ou memorando de entendimento -  por ele negociado e implementado enquanto Primeiro Ministro), e também aí, perdemos a oportunidade (como sempre) para evoluir. A Alemanha e a França faliram oito vezes e a Espanha consegue a proeza de ter falido13 vezes. Os espanhóis, aliás, foram os que mais processos de falência perante os seus credores registaram em todo o Mundo até hoje. Mas nem só de “maus” se faz este “filme” já que países como os EUA, Canadá, Reino Unido, Holanda ou Suécia cumpriram sempre as suas obrigações perante os seus credores internos e externos. Tendo aqui que se destacar que isto não representa um atestado de rigorosamente nada já que, por exemplo, os EUA têm uma dívida pública colossal (não em percentagem do PIB e sim em valor nominal real) que tem subido bastante, por várias vezes, e até o tecto máximo (limite máximo) que é possível ter de dívida pública em função do PIB, para se continuar igual ... e evitar o default, tem sido subido em função do que precisam (para quê ter um limite máximo de endividamento se não for para cumprir?).
Quando uma empresa vai à falência é uma questão de tempo e desaparece, mas as pessoas não ... e muito menos os Países, o que nos leva às perguntas - Afinal quantos anos dura uma falência? Qual o número de anos que o País em questão não pagou aos seus credores. A Grécia aparece em destaque com uma história de incumprimento único já que desde 1839 até hoje, mais de metade destes quase 200 anos foram passados em default. No top dos campeões do incumprimentos seguem-se a maioria dos Países da América Latina (cerca de 40% dos últimos dois séculos em falência).
As causas para um País acabar em default, falência ou em incumprimento são várias, mas em comum todas têm o facto de preferirem não saber, nem olhar, a doença. É preciso abordarem todos os assuntos, atacarem os problemas, e para isso é preciso que a população comece individualmente a querer ir saber, estudar, aprender, investigar, interessar-se, para que passe a fazer sentido ter que ser abordado pelos líderes ou os que se candidatam para líderes. O Povo faz o País e não ao contrário.
O que é certo é que nos últimos dois séculos esses colapsos foram sobretudo desencadeados (a última gota de água) pela queda abrupta dos preços das matérias-primas, por fugas repentinas de capitais ou choques na confiança dos investidores.
Mas de uma maneira geral ninguém aprendeu com os erros e isso já se vai ouvindo até de pessoas bem mais credíveis que eu.
As coisas mais difíceis de se ouvir são normalmente as que não podem ficar por dizer e a malta não se pode afastar da responsabilidade para consigo e com o seu País, para com os que lutaram para nos conceder este Presente, Livre, nem que seja para falar e dizer o que quer que seja. Para não ir votar porque dá trabalho, ou porque preferimos ir à praia e depois passar o tempo a reclamar como tantos que conheço. Temos de perceber que o preço da Liberdade está aí, e não serão os famosos “Eles” a pagar ... e sim Nós. Não gosto desta política de hoje, mas adoro o que a Política representa (A verdadeira), a multiplicidade é sinal de riqueza, mas sem vontade de gerar consenso e sem disponibilidade (flexibilidade) em nome de algo maior ... mais do que continuar a dissecar tudo o que nos separa ... é melhor começarmos a concentrar-nos naquela que é a zona com maior área – o que é comum (Portugal) e como torná-lo viável e sustentável (coisa que nunca foi!)
A Democracia é o regime mais caro, mas o único que oferece Liberdade aos cidadãos. Com grande poder (como o poder fazer o que se quiser com a nossa liberdade) vem sempre uma grande responsabilidade ...

Para acabar sugiro um livro que muito esclarece sobre as falência dos Países e os porquês - This time is diferente (2011), Kenneth S. Rogoff e Carmen Reinhart, ambos docentes da Universidade norte-americana de Harvard, analistas das crises financeiras passadas que chegam mesmo a referir que, ao longo dos anos, países e credores sofrem continuamente do síndrome de «desta vez será diferente», uma espécie de ilusão de que se aprendeu com os erros do passado, após uma crise, e que no futuro estes não se irão repetir. Isto, mesmo não tendo parado sequer para que se ganhe consciência dos mesmos, para depois os abordar (sem pré-conceitos nem conflitos de interesses) o que faz com que norma não se mudem os modelos insustentáveis como vivemos.
Basta olhar para as crises de incumprimento na Argentina na Grécia, ou a entre as “bolhas” das “dotcom” e do “subprime” nos EUA (eventos separados por menos de dez anos entre si), ou até para Portugal, para se perceber o quanto dura a memória de políticos e dos mercados. Como concluem Rogoff e Reinhart no seu livro: «a capacidade de os governantes e investidores se iludirem, abrindo portas a um período de euforia que normalmente acaba em lágrimas, permanece uma constante» mas vou mais longe já que também Eu e tu sofremos do mesmo ... e aí é só olharmos para a nossa história recente.

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